Não quero que acabe. Que tudo acabe desse jeito medonho. Sempre soube. Afinal, todos sabem o rumo que a vida toma. Sem essa de destino. Não me venham encher o saco agora. Se vive do jeito que se escolhe viver, mas isso não. Isso eu não queria.

Aprendi a fugir de mim mesmo, mas desta vez não tem como.

Os nervos puros aparecem e apodrecem pelos buracos das minhas mãos.

Nunca fizeram isso dessa forma, assim. Caras como eu, primeiro entravam na porrada e depois eram amarrados, pendurados sem o apoio dos pés. Para que o próprio peso do corpo, escorregando na madeira os sufocasse. Hoje está na moda pregar as mãos, os punhos, as canelas, os pés – até que não se consiga mais respirar. Está na moda assim, dói mais e se morre mais rápido. O pouco de sangue que sobra jorra rápido em mil gotas podres e fedorentas, na cara deles na hora da martelada do juízo.

Bem feito! Vão à merda! Vão se foder! Trabalho de merda pregar os outros. Trabalho de merda asfixiar pessoas! E nem passa pela cabeça que amanhã são eles que podem estar aqui no meu lugar, de mãos pregadas ao madeiro. Eu e eles. Nenhuma diferença. Nenhuma. Só que eu nunca enfiei pregos em ninguém. Vão se foder!

Antigamente os pendurados morriam de “morte natural”, diziam. É natural… ser… estar pendurado ao poste, com os braços abertos… Escorregar sem poder apoiar os pés, o ar que vai faltando, como se joelhos esmagassem pescoços. E o corpo em pedaços pelas surras passadas, pelos cuspes, pelas chicotadas, pelos chutes. Morte natural… quando os malditos corvos vêm comer seus olhos com você vivo… Morte natural? Arder ao sol do deserto que te frita as chagas vivas cheias de moscas e vírus e sem conseguir respirar. Morte natural é o caralho!

Nada é mais natural do que a morte. Estamos rodeados por ela. A morte. Foda-se! “E daí?”, diria um genocida.

Agora sou um ouvido surdo e uma boca muda, nada de mim funciona mais.

Será esta a morte? Medo do escuro, a escuridão do medo. A morte é o medo que dela se tem. Ou a morte é somente a noite da mente e da memória? Eu que não respondo mais de mim, nem a mim. Destroço resistentes em um oceano de porradas. A minha única vida, sem outra chance, circundada por uma eternidade de mortes.

Não é justo, caralho! Não é justo. Eu não quero.

Este é o grito que só eu escuto. Ninguém, não tem ninguém, não há ninguém comigo, para mim, nem para me olhar morrer. Nem os caras que me penduraram aqui… Eles foram para o outro lado, do outro lado, jogar dados. Fodam-se todos. Fo-dam-se!

Boca muda, ouvido surdo, olho cego: quanta é a parte de dor que me cabe?
Eu não escolhi estar aqui e nem com quem e nem por quê. Até os que me penduraram foram embora, para o outro lado. Não, aqui onde estou é o verdadeiro outro lado, eles estão na frente, do “lado certo”. Ou do lado centrão. O meu, é o outro lado. Sempre soube qual era o meu lugar. Desde a primeira vez que vi uma cena dessas, sabia que mais cedo ou mais tarde o prazer de ocupar o outro lado seria meu.

E como nunca ninguém deu nada por mim, jamais imaginei poder estar na frente, do lado certo, assim como esse cara que range nas minhas costas. O lado bom, o lado da frente, nas minhas costas. A vanguarda em retaguarda.

Um homem famoso, um monte de gente acompanhando um belo espetáculo. Eu vim sozinho na jaula puxada a burro. O bacana, com um monte de gente atrás, e agora eu aqui atrás dele, e sozinho na jaula.

Parece que ele nem viu que estou aqui. Nem percebeu minha presença, nem me viu, nem nada. Os olhares são pra ele, esse cara é famoso. Quando cheguei de jaula e tudo, já estava aqui há um tempinho, já tinha gente na frente e ninguém me viu, nem perceberam os gritos que eu dava a cada martelada. Todos os olhos eram para ele. Os pregos furando minhas mãos, assim como as dele. Meus pés como os dele. E sabe para quem todo esse povo chorava? Pra ele, caralho! Pra ele, como se minha dor fosse menor que a dele. Pra ele é que todo mundo chorava. Eu continuo o merda de sempre.

Importante, e fodido como eu, agora ele está chamando pelo pai. Chama o pai que parece tê-lo abandonado faz tempo. Tem maluco pra tudo… Não entendo, a mãe dele aí na frente, e ele chamando o pai.

O cara do lado tem a mãe e o irmão e a amiguinha que chora bem aqui debaixo. Mulherzinha jovenzinha frangota boa, coxão, peitão… e outros cortes. Dá pra ouvi os berros. Ou será que é a mãe gritando? Grande cara este: trazer a mãe para vê-lo morrer. Parabéns.

Eu, nem sei quem é minha mãe, imagina o pai. E ele chamando “pai”, “paizinho”.

Na minha frente, ninguém. Meus olhos cegos não sentem ninguém aqui me olhando.

De onde eu venho? De lugar nenhum. Quem sou eu? Um idiota qualquer. Quem são os meus? Os malcomidos, os malpagos, os malvividos, os semdinheiro, os semtrabalho, os semteto, os semdireitos. Os semporranenhuma, os dono de promessasvazias, os donosdenada. Nem de si.

Eis os meus e as minhas. E não estão aqui, porque estão em todo lugar.

Irmãos e irmãs, eu tenho de sobra. Todos no mesmo barco. São aqueles como eu: cachorros mortos comendo uns aos outros, como aquele que me vendeu e aquele que martelou os pregos em mim. O filho da puta estava com fome. É, porque para cada dez homens na praça, um é filho da puta. E me dedou, disse que eu roubei a galinha, roubei a carteira, roubei a merda de dois tostões… O dedo-duro me entregou por um prato de feijão. Logo veio a porrada. Mais rápida que a minha tentativa de explicação. Com a minha gente, a polícia tem pressa de saber quando, como, os porquê, quem e com quem… “Tá vindo de onde?”, “Tá indo pra onde?”. “Tu tem pinta de bandido”, me disseram. Por isso, estou sobrevivendo com um cara que morre colado nas minhas costas, atrás de mim, chamando pelo pai.

Ei, cara? Para de chorar, seja homem, a mamãezinha não te explicou como as coisas funcionam nesse mundo machista que teu pai criou?… Então, seja homem, caralho! Para de chorar! Enfrente. Ou você vem de uma terra de maricas?

Não sabe que nesta porra de lugar vêm somente aqueles como nós, os fodidos. Você é famoso, cara, tem muita gente em frente… Em frente a mim, ninguém, porque eu não sou ninguém, mas tenho colhão pra aguentar, cara. Pare de chorar, por favor.

Não posso te responder, cara, a minha boca é uma abóbora inchada de pus e sangue, e você me chama e pede água…

Que morte é a nossa, cara? Era de se esperar. A morte tem a nossa cara, cara. Parda. Preta. Negra. Moura. Crioula. Sempre foi assim. Sempre será?

Estou aqui, sim. Estou aqui, estou ouvindo. Não posso responder com palavras só com gemidos. Estou aqui. Fala, cara. Fala só para se aliviar um pouco, pode falar. Deixa em paz a sua mãe, caralho! Não vê que ela está chorando. Fala comigo, cara…

Eu sei que o prego dói. Ou acha que os meu fazem cócegas… Diga pelo menos alguma coisa que não saiba. Doem os pés, doem as mãos, dói aqui, dói ali… Que saco, cara! Dói tudo. Dói o mundo. É o mundo que dói. Ainda não entendeu? Então, morra como homem, caralho!

É, você entendeu bem? Estou dizendo que dói tudo, porque o mundo dói. É o terceiro mundo nas costas, cara. Os fodidos, como eu, carregam o terceiro mundo nas costas. Pesado pra Ca-ra-lho. Você não sabe de nada. Você é famoso, versado, estudado, milhares de seguidores. Tem mãe, e tem pai também, prontinhos pra te ajudar sempre que você chamar. Os fodidos como eu, não. Nada de mãe, nada de pai. Nada de ajuda. Seguidores só os de fardas. Para nós – filhas e filhos da “rainha do meio-dia” –, é a lei do cão. Que cada um carregue o seu mundo nas costas. E de terceiros mundos para carregar têm quantos quiser, cara. Tem pra mim e pra você também. Está me vendo aqui? Eu levando o meu mundo neste poste de merda que deveria ter sido carregado por outro. E não por mim, que não fiz nada. Poderia ser outra vida qualquer. Pra eles e pra política de morte que produzem não faz diferença nenhuma. Seja eu, seja outro, sejam 500 mil mortes, dá na mesma. Desde que sejam quase todas mortes pretas de tão pobres. Quase pretas como você.

Vida de merda e morte de merda. Mas é mais morte de merda. Porque na vida tem coisa que vale a pena sim, senhor. E aquela putin… Mulherzinha? Até tu… Bom, deixa pra lá! Desculp’aí.

Ei, cara? Estou com rosto no sol. Bem em cima de mim… Puta merda! Que calor insuportável. Pelo menos você tem mais sorte, está de frente pra mãe e de costas pro sol. Enquanto o sol bate em mim, que estou de costas pra você e sem mãe. Queria poder me virar e te ver. Te ouvir. Até na morte tem gente com sorte e outros que se estrepam. Até na morte.

Desculpa, cara, pode falar…

Fala, cara… Fala comigo que eu te escuto… Estou bem aqui, atrás de você. Grudado. Fala… Estou meio surdo de tanta porrada, mas ainda escuto o seu gemido se confundir com o meu.

Eles conseguiram, dobraram o nosso corpo e o nosso espírito também. Quando o corpo dói desse jeito, a gente daria qualquer coisa para parar de doer. A gente venderia até a mãe… Desculpa, cara, não queria ofender sua mãe, nem você. Pede desculpa a ela por mim. É que daqui não consigo vê-la. Só sei que está aí porque há pouco você falava com ela para cuidar do seu irmão e ao seu irmão dizia para cuidar dela. Desculpa. Tira essa culpa de mim, senhor.

Se a minha mãe estivesse aqui… Fala, cara, te interrompi… Oi! O que disse?

Então tá! Se não quiser falar nada, fique quietinho aí. Calado. Em silêncio. Escute o corvo chegar. A morte chegar… Sinta o sol arder mais. Agora é o sangue que arde… Faz duas horas que você não diz nada. Eu sei que ainda não morreu, porque sinto seus espasmos.

Não entendo, cara, porque seu pai foi tão filho da puta assim de te abandonar… E agora você pede para que seja feita a vontade dele. Você é maluco, cara? Ei, cara?! Cara, responde… Ei?… Merda! Caralho! Responde, porra!…. Vai se foder! Não morra… Não me deixe só você também… Fica comigo, cara! Não tenho ninguém. Não vai… Não morra. Por que você também? Não morra, cara! Fica! Fica comigo. Não quero morrer aqui sob o sol, com as dores do mundo que carrego, e sozin… Ei, cara? Não! Não! Não…

 

o sol foi embora

trovão

chuva a molhar o meu rosto

está chovendo e trovejando como nunca

está escuro e estou com frio, com tanto frio

ei, cara? Você está aí?

 

só nos resta resistirmos

 

Texto de Paolo D’Aprile, com colaboração de Kássio Motta.